Como um sonho pode mudar sua atitude?

Muitas vezes só um sonho é capaz de nos dar o choque necessário, pelo meio correto para percebermos que uma atitude que temos não é condizente com quem somos. Não é seu pai, seu cônjuge ou seu analista que disse, é a parte mais profunda de seu ser que trouxe uma imagem que lhe chocou, abalou e te faz questionar: como não percebi isso antes?
Vou trazer um exemplo de caso do próprio Jung e explicar para você para responder essa pergunta: como o sonho pode nos transformar?
O presente trecho encontra-se na obra completa, no volume três a partir do §400
“[401] Um de meus pacientes, homem de pouquíssima força de vontade, preguiçoso e passivo, teve o seguinte sonho: um homem lhe deu de presente uma espada antiga, muito singular, que trazia estranhas inscrições arcaicas. O sonhador gostou imensamente do presente. Na época do sonho, ele sofria de um leve mal-estar físico que o impressionou de maneira exagerada, provocando um estado de completo desespero e passividade. Ele perdeu todo interesse e prazer pela vida.”
Observe o primeiro ponto, a atitude do homem: preguiçoso e passivo diante da vida, teve um leve mal-estar físico que o impactou muito, ficou desesperado de modo exagerado e rendeu-se ao mal-estar.
Então o homem, tendo essa atitude sonha que ganha de presente uma espada, guarde esses detalhes que vamos seguir a diante no texto:
“[401] É absolutamente óbvio que o paciente se encontrava sob forte influência do complexo do pai e desejava adquirir o poder fálico (a espada) de seu pai. Foi esse justamente seu erro infantil; ele nada mais queria senão conquistar a vida de uma maneira sexualmente arcaica. Até este ponto a redução do simbolismo do sonho é satisfatória. Só que o paciente tinha consciência de tudo isso e podia, sem qualquer dificuldade, interpretar seu sonho nessa perspectiva. Essa interpretação não lhe trazia, portanto, nada de novo.”
Aqui Jung analisa o sonho de modo redutivo, isto é, levando o problema às suas causas. O que causa essa passividade e falta de atitude do homem? Ele tenta copiar o pai tentando conquistar a vida de modo infantil e arcaico. Observe que a espada enquanto símbolo de autoridade, lei, atitude de modo geral se associa ao pai e ao complexo paterno, o pai e os adultos no geral representam a capacidade de autonomia e de enfrentar a vida.
O mais importante deste trecho é que, o paciente disso já sabia, não adianta saber só a causa do que te aflige, é preciso mais, vamos seguir o texto:
“[402] Ele associou o homem do sonho a um amigo de juventude que adoecera seriamente de tuberculose, e foi desenganado. O paciente disse o seguinte: “Foi maravilhoso ver como esse meu amigo suportou a dor; tinha uma paciência, uma coragem e esperança impressionantes. Costumava dizer que não queria morrer, que havia decidido viver. Foi um verdadeiro exemplo de coragem”. Ele fez as seguintes associações com a palavra espada: “uma velha espada de bronze que, desde tempos imemoriais, vem passando de geração em geração. As inscrições me lembram línguas arcaicas e civilizações antigas. A espada é uma velha herança da humanidade, uma arma, um instrumento de defesa e ataque, uma proteção contra o perigo de vida”.”
Por que pedimos associações em um sonho? Para entender o que cada elemento significa para o sonhador, se esse homem é parecido com o amigo, e lhe dá a espada, então a atitude que falta para o sonhador na sua vida diária é análoga a do amigo: suportar a dor com paciência, coragem e esperança.
A espada para o sonhador é um elemento de ataque e defesa, é o que permite lutar para existir no mundo, permite conquistar, é expressão do desejo de existir e viver, da luta pelo viver. Então o sonhador precisa equilibrar sua vida com esses elementos da espada por meio da atitude do amigo: para saber o que quer e fazer o necessário para conseguir, ele precisa suportar a dor com paciência, coragem e esperança.
Seguimos o restante do texto:
[403] Agora nos encontramos em condições de compreender: seu jovem amigo ofereceu um exemplo inestimável de como é possível vencer o perigo de vida por meio de uma decisão firme e corajosa. As palavras “eu quero” são a herança mais antiga da
humanidade, ajudando esta a enfrentar inúmeros perigos. Ela constitui a proteção da humanidade civilizada contra o animal, que apenas possui instintos e obedece cegamente às leis da natureza. Este sonho abriu para o paciente um caminho novo, no sentido de uma perspectiva mais idealista que o redimiu da autocomiseração da infância, conduzindo-o a uma atitude que sempre auxiliou a humanidade na iminência das ameaças e perigos.
O sonho abriu caminho pelo exemplo do amigo que trouxe o choque necessário para que o paciente começasse a se relacionar com o que quer, e a ter atitude necessária para lidar com isso.
Sem o sonho não importa se o analista diga “você precisa ser mais ativo na vida, saber o que quer e lutar por isso”, de nada vai adiantar, até porque nem o analista sabe o que paciente precisa, mas o sonho indica o que falta, e o sonho é soberano nesse sentido, pois nenhum ser humano detém um saber que assegura-o a dizer o que os outros precisam, que caminho devem trilhar, isso é uma atitude de superioridade falsa, pois não sabemos o que cada um deve ou não viver. O erro de um é o acerto de outro. O sonho nos ajuda a ter um ponto um tanto mais confiável sobre dizer o que falta ao paciente, pois não e ninguém que o diz, mas o material espontâneo do próprio paciente que fala: seus sintomas, suas dores e seus sonhos que contrapõem sua atitude e perspectiva.
“Como a psique é o ponto de interseção, ela precisa ser definida tendo em vista ambos os aspectos. De um lado, ela oferece um quadro de tudo o que passou e, na medida em que a própria alma gera o futuro, ela apresenta também um quadro do conhecimento do germe de tudo que está por vir.”
Nosso funcionamento psicológico contém os germes, as sementes do que está por vir, assim como na criança está o adulto em potencial, nesse homem sem atitude está a semente de outro homem com atitude, a dor, a falta, e o sofrimento a que chamamos de sintoma usualmente é o guia, o chamado para uma busca sobre quem somos, uma reconexão com nós mesmos para que possamos seguir em frente sempre e de novo.
Para concluir gostaria de deixar você com uma citação que sintetiza o que é a análise:
“Eis por que o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento. A totalidade, a plenitude da vida exige um equilíbrio entre sofrimento e alegria. Mas como o sofrimento é positivamente desagradável, é natural que se prefira nem conhecer a medida do medo e inquietação para a qual o homem foi criado. É por isso que se diz sempre, benevolentemente, que tudo vai melhorar, que se vai alcançar a maior felicidade do mundo, sem pensar que a felicidade também está contaminada, enquanto não se completar a dose de sofrimento.” - Jung, no livro a prática da psicoterapia.
Ricardo Sergio Backes Bertuol
Analista Junguiano & Psicólogo CRP 08/32882







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