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A criatividade começa a morrer quando te vendem um "como chegar lá"

28 de mai.
4 min de leitura
Carta representando a morte da criatividade: esqueleto, corvos e a lua

Somos pressionados todos os dias com os métodos do sucesso, promessas de bio de Instagram "te ajudo", "te ensino", "faço você"... será que não temos mais criatividade para caminhar o nosso próprio caminho?


Por muito tempo me angustiei sobre o que eu escreveria na minha bio, que promessa eu diria para pessoas que poderiam buscar fazer análise comigo, troquei diversas vezes porque eu queria ser um psicólogo/analista bem sucedido e achava que a promessa certa e as palavras certas resolveriam minha carreira profissional.


Aí minha criatividade, minha expressividade, minha escrita... tudo começou a morrer e agonizar lentamente.


Sonhos e mais sonhos depois, sessões e sessões de análise e muita reflexão depois eu entendi que não se trata de transmitir a paixão que tenho pelo meu trabalho (isso é autoevidente), se trata em estar com as pessoas, ao lado delas, não como autoridade que sabe e fornece um caminho mágico, mas como um igual, e é exatamente desse mesmo lugar que sou analista: um igual.


Esse também é um dos motivos por eu trabalhar com Jung, porque não temos um caminho pré-definido. Jung acreditava que a personalidade humana é de uma variação individual tão grande que não se pode delimitar objetivos de terapia rígidos, nem métodos aplicáveis em massa para as pessoas. Mas, ao mesmo tempo também reconhecia que a personalidade humana é feita e carregada de aspectos comuns e coletivos, que nos torna humanos e que nos permite compartilhar a vida.


A psicologia de Jung trata-se de manter-se tensionado nessas contradições e paradoxos.


Na manhã de hoje me surgiu o pensamento de que eu mesmo havia matado minha criatividade, meu caminho único quando comecei a acreditar no "como chegar lá", e cada influencer, coach ou autoridade tem sua própria mágica para alcançar uma imagem, uma fantasia, um objetivo.


Sim, eu caí nessa fantasia de consumo, nesse desejo de sucesso e me apaguei cada vez mais. Mas os sonhos me trouxeram de volta, e eu os levei a sério. Eu abandonei e deixei em suspenso diversas ambições, deixei tudo de lado e aguardei os próximos sonhos, e os seguintes.


Eu iria reestruturar muitas e muitas coisas, cheio de projetos e ansiedades. Mas eu escutei, eu parei, ouvi e havia uma bagunça incompreensível dentro de mim, um barulho que eu só queria que fosse embora, mas esse barulho era eu mesmo, minha individualidade, que não cabia, que não se sujeitava ao caminho ou ao método do sucesso.


Meu objetivo em contar isso? Tenho certeza que é muito do que todos vocês devem sentir um pouco: meio sufocados e mortos por dentro porque a criatividade morreu junto com a individualidade. Temos que fazer as coisas padronizadas para atingir o sucesso.


Devemos ser máscaras perfeitas e consumíveis, não rostos reais. E as máscaras estão, como os gráficos de vídeo game, cada vez mais realistas, até mesmo palpáveis, para passarem a ilusão de que é possível ser aquilo.


Essa ideia seduz porque não precisamos lidar com as complicações de sentimentos, e desenvolver posturas individuais que muitas vezes podem ir contra ao que as pessoas e a sociedade valorizam.


Não sei como será o futuro, não sei quais transformações em mim se darão ou se talvez eu tropece exatamente no mesmo lugar novamente e por óbvio correrei o risco da contradição e da hipocrisia de me tornar o que critico e revelo aqui, e se for aquilo que o destino me reserva então que eu tropece, caia e seja hipócrita porque tento não temer o retrocesso, pois temo muito mais a estagnação.


Entre o progresso e retrocesso eu me descubro, me movimento. O caminho que eu trilho é humano, o mesmo caminho que meus pacientes trilham: é real, com falhas, com idas e vindas, mas felizmente temos os sonhos para nos ajudar e a companhia uns dos outros.


Sonhos são como nosso sistema imunológico, assim como o sistema imune nos mantém vivos os sonhos podem nos manter acordados sobre quem somos.


Não seja como eu, não compre essa ideia de que existe um caminho e um método que basta você seguir para que a vida faça sentido, ou para ser bem sucedido ou para que você pare de sentir tanta raiva ou o que quer que seja. O caminho é uma semente individual que precisa ser zelada, cuidada e cultivada.


Talvez você precise encontrar a sua e cultivá-la, seja ela onde for e como for, se isso já te proporcionar uma reflexão sobre o que te realiza, já fico feliz.


Questione o mundo que vive, questione seu tempo, os costumes, repense, estude o passado e entenda as raízes que te fundam hoje. Acima de tudo, escute a si mesmo, se conheça ao invés de procurar de modo perturbado algo que te faça sair dessa tempestade, entenda que a tempestade é um fenômeno da natureza, e não há mágica ou tecnologia no mundo que faça a natureza nos obedecer por completo.


Muitas vezes o barulho que te atrapalha é sua própria voz que você aprendeu, pelo método do sucesso, a silenciar. O barulho era a sua criatividade.


Ricardo Sergio Backes Bertuol

Psicólogo & Analista Junguiano

CRP 08/32882

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Marie Louise von Franz

"A análise consiste em educar as pessoas a conseguir ouvir sua voz interior"

“Assim, em nossa linha de trabalho, seguimos os sonhos. Trabalhamos com o paciente para descobrir o significado e deixamos a coisa aí. Dessa forma, o paciente não se sente preso na camisa de força do conceito do analista sobre normalidade ou adaptação. Ele segue suas intimações interiores, aquilo que sua própria psique lhe diz. Portanto, a análise consiste em educar as pessoas a conseguir ouvir sua voz interior e a segui-la com o auxílio dos sonhos.” - Von Franz no livro "Caminho dos sonhos"

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