O importante é que algo pouse, sejam moscas ou abelhas
- 19 de mai.
- 3 min de leitura

Valeu a pena? Buscar tanto se encaixar, moldar, quebrar, cortar… o que você realmente alcançou com isso?
Tudo se transformou em um grande palco, nenhum lugar escapa da ganância, do performar e da máscara.
Não tem mais amizade, tem networking e contatos. Como era o mundo antes disso? Se é que existiu algum mundo assim.
Todo lugar que você é visto vira um micro evento cuidadosamente dedicado ao como você vai se mostrar.
Seja você consciente ou não disso, o adolescente é preocupado com sua popularidade tanto quanto o adulto se preocupa com a carreira e com o networking que faz.
Qual a roupa? A cor? O que isso comunica?
O centro e o sentido de existência se torna quem você parece ser, a imagem criada, a expectativa, a marca que quer deixar.
O resultado? Constante julgamento e pressão. De repente o mundo virou do tamanho de um pequeno ovo. O ar não entra mais em pulmões estão cheios de moscas (ou abelhas buscando mel?).
O coração bombeia views. Os rins filtram headlines. Que enunciados você fará ao mundo dos seus stories? Do seu feed? Coisas que você julgava tão importantes de serem ditas ignoradas ou vistas por expectadores silenciosos que nada dizem ou fazem. Isso é interação ou consumo de enunciados?
Consumo de mensagens rápidas digeridas por roupa, aparelhos, acessórios utilizados. Você transpira e perpassa a experiência de um lugar econômico e social.
F*dam-se seus sentimentos ou suas opiniões únicas, se essas não puderem ser consumidas ninguém vai ler, ver ou interagir, não importa. O real perdeu valor (se é que ainda lhe resta algum valor).
Como descreve Kafka em metamorfose, Gregor só tinha valor se pudesse sustentar a família, a partir disso virou um fardo. Não seríamos um fardo no mundo se não nos tornamos consumíveis? Produtivos? Bem-sucedidos?
E se o que tínhamos de tão importante para dizer ao mundo fosse como o trabalho que Gregor fazia? De repente todo mundo vive sem ele? A liberdade que isso traria! Não precisar mais se destruir para alcançar essa expectativa de futuro ilusória, esse "cheguei lá" que jamais chega a lugar algum. Será que alguém precisa disso?
E se Gregor trabalhasse para si próprio? Pelos próprios sonhos? Não em parecer algo para o mundo, mas dedicar-se a um caminho que lhe fosse próprio, sussurrado em seus sonhos enquanto dormia, ou pelo desejo que lhe pulsa como uma unha encravada da qual queremos nos livrar o mais rápido possível?
Ninguém precisa da sua imagem perfeita. Ela é descartável, um esforço para atirar-se num precipício vazio. É um monumento para moscas pisarem com sua sujeira, não é real, é um atrativo para multidões, todos desejam pousar no sucesso.
No fim, somos todos moscas?
A vida e a imagem são mercadorias, e nos relacionamos para consumir, não para unir, não para outra finalidade exceto aquela de consumir um ao outro, e que venda o melhor produto, a melhor imagem.
Que venda aquilo que render mais cliques, seja bom ou ruim o importante é que seja consumível, que vários insetos pousem, quanto mais barulho fizerem? Melhor.
Quanto mais consumível você for, mais sucesso terá, mais clientes terá, mais prestígio, mais… bom, a lista é longa.
Venceu na vida aquele que se tornou consumível, e resta aos que estão a margem tornarem-se invejosos ressentidos por não serem tão doces e desejáveis. E eu já não sei se existe alguém que não esteja ressentido porque o outro parece mais cheio de moscas ou abelhas, mais desejável e "vendível".
Lá se vai uma vida inteira se comparando com perfil em perfil, uma fila linda e infinita de reels, stories em que vemos quem está melhor e quem está pior. Pousamos, curtimos, e voamos para o próximo destino.
O importante é que algo pouse e consuma, sejam moscas ou abelhas. O que pousa indica o tipo de cheiro que soltamos ao mundo, mas ninguém realmente sabe se é mosca ou abelha.
Afinal, que valor realmente temos se jamais podemos mostrar algo que não seja passível de ser consumido?
E todos nós vamos lá desesperados atrás desse mel para que pousem em nós.
Tudo virou palco, não sobrou mais nada.
Você é uma mosca ou uma abelha? E o que será que esse texto é?
Ricardo Sergio Backes Bertuol
Psicólogo & Analista Junguiano
CRP 08/32882







Estamos vazios de sentido porque vivemos numa vitrine de máscaras ou vice-versa? Vale a reflexão.