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Medusa: o feminino sombrio nos homens

  • 26 de jul. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 11 de mar.

Retrato de Medusa
Retrato de Medusa

"Venha me ver e você encontrará minha verdade no reflexo" - Tarja Turunen na música Medusa (ouça aqui).


Medusa é um mito complexo, uma sacerdotisa violada por Poseidon, e por essa violação ter acontecido no templo sagrado, Atena fica furiosa e pune Medusa transformando-a em um monstro, uma górgona cujo o olhar petrifica a todos e assim ninguém mais ousaria olhar para ela.


"Dance comigo a dança do fogo, sinta nossos mundos colidindo, junte-se a mim em um desejo congelante. A última coisa que você verá serão meus olhos" - Tarja em Medusa.


O fim de Medusa é ser decapitada pelo herói Perseu.


É importante pensarmos sobre o machismo e a injustiça envolvendo esse mito, tanto que temos essa obra abaixo em que é Medusa quem decapita Perseu:


Escultura de Medusa segurando a cabeça de Perseu
Escultura de Medusa segurando a cabeça de Perseu

Medusa até hoje mexe com nosso imaginário, desperta emoções, críticas e aqui eu vou fazer uma tentativa de abordar isso de uma forma simbólica.


A Medusa parece ser principalmente a imagem que os homens constroem nas fantasias que fazem sobre a mulher, sobre o feminino.


Em um primeiro momento sentem uma atração tão forte em relação a beleza que se acham no direito de exercer poder, de violentar, de dominar, comandar e muitos se acham no direito de concretizar essa fantasia. Dificilmente se relacionam com a mulher, mas apenas com sua própria fantasia. Esse para mim, seria o primeiro momento do mito, o momento da grande violência.


Essa atitude rompe algo, quebra algo. No mito o templo é profanado quando Poseidon violenta Medusa. O homem não lidou consigo mesmo, falhou em ter consciência de que o outro não é objeto para possuir. Então, por consequência o feminino é transformado em monstro.


O feminino então é aterrorizante e petrificante. O homem demoniza tanto o feminino em si mesmo, naquelas coisas que considera coisas de mulher e desta forma inferiores, que esses aspectos de sua fantasia sofrem distorções. Tudo aquilo que atribui-se culturalmente a mulher, o homem não pode viver porque deixaria de ser homem.


O homem não consegue mais exercer suas emoções, vulnerabilidades e afetividades, porque isso é "coisa de mulher". Então se torna um homem explosivo, descontrolado e desgovernado. Isso atinge homens gays inclusive, pois se separam arduamente entre papeis masculinos e femininos ao invés da percepção que somos seres humanos e vivemos por inteiro.


Mas, por que o fim de Medusa é a decapitação e o que isso significa simbolicamente?


Marie Louise von Franz nos explica no livro motivos de redenção que a decapitação pode simbolizar o momento de desprendimento, uma capacidade de observação objetiva sobre si próprio seja os impulsos e pensamentos.


A maldição de Atena em Medusa que transforma o feminino na pior coisa que existe para o homem é quebrada, então há a possibilidade de finalmente ver esse feminino. É um momento de conscientização sobre o próprio feminino em si mesmo, trazendo a tona possibilidades de como vivenciar e criar experiências a partir desse feminino que foi tão injustiçado.


Seria o momento em que surgem perguntas: por que tenho tanto medo do feminino a ponto de ele se tornar uma imagem monstruosa? Por que preciso oprimir e violentar o que remete ao feminino? Por que odeio e tenho repulsa aos homens efeminados?


Medusa pode ser visto como a descrição de um processo inconsciente que os homens tem sobre o feminino, usualmente uma relação problemática e sombria que separa o homem de sua própria natureza, pois a natureza é humana e inclui a vivência de todos os elementos, sejam eles classificados em nossa cultura como masculinos ou femininos.


Observe que se o homem olha para o feminino e acha que pode dominá-lo, subestimá-lo, possuí-lo, está muito enganado, pois ele quebrará algo dentro de si próprio. As relações ficam difíceis, ficará possessivo e ciumento, não desenvolverá a própria personalidade, e ficará preso em jogos de poder, pois verá tudo não sobre a perspectiva da conexão, mas da perspectiva do domínio e do poder, para se tornar o homem idealizado socialmente ele perderá a conexão consigo mesmo.


São exatamente esses mesmos homens que provavelmente vão objetificar a mulher, vendo-a não como ser humano, mas como um meio para o prazer sexual, e vão apenas trocar afeto com outros homens e enxergar a humanidade apenas nos homens (que cumprem o ideal masculino).


"É uma ideia tola que os homens têm. Eles acreditam que eros seja sexo, mas estão errados. Eros é relacionamento" - Jung

E qual característica é atribuída culturalmente ao feminino que não a relação? As emoções? O cuidado? O pensar no outro? O homem destrói esses aspectos em si mesmo para tornar-se homem como a cultura o ordena para ocupar seu lugar fantasioso de superioridade, torna-se incapaz de se relacionar, é como se esses aspectos destruídos se tornassem a própria Medusa dentro dele mesmo, ele se torna incapaz de olhar e criticar sua capacidade de se relacionar, cuidar, pensar no outro, torna-se individualista e egoísta focado no jogo da conquista em sua masculinidade desequilibrada e tóxica.


Os homens confundem relação com sexo e poder, e essa confusão cria a incapacidade de se relacionar adequadamente refletida na imagem da transformação de bela sacerdotisa para a horripilante Medusa. A decapitação representa o momento de conscientização, e o fato de que Perseu consegue decapitá-la porque a vê pelo reflexo o que reforça esse processo de reflexão e conscientização.


O reconhecimento dos conteúdos que o homem fantasia sobre a mulher o tornará capaz de se relacionar adequadamente com a mulher concreta fora de si, ao invés de se relacionar com as próprias fantasias do feminino que ele lança na mulher ou sobre elementos femininos.


Olhar diretamente para a Medusa e ser petrificado é falta de reflexão, e por essa falta o homem jamais desenvolve sua personalidade, ou seja, torna-se incapaz de exercer as qualidades do feminino por preconceito, note que feminino enquanto os preceitos culturais dizem, cujo os quais o homem nega para afirmar-se homem.


"O exagerado ideal masculino significa um constante desafio, uma constante incitação, uma inquietude cujos resultados são naturalmente a vaidade, a locupletação, a manutenção da atitude privilegiada; e todas estas coisas são contrárias a uma bem equilibrada vida social" - Adler

Medusa parece ser o retrato desse processo coletivo que ocorre em relação ao feminino. Claro que um mito jamais se esgota em uma interpretação, mas como ele me impactou para pensar em várias coisas, decidi compartilhar essas ideias com você. Preciso reiterar que esse texto não tem pretensão acadêmica, são pensamentos, impressões que venho tendo a respeito desse mito com recortes arbitrários.


Um abraço de seu psi, Ricardo <3


Ricardo Sergio Backes Bertuol

Psicólogo & Analista Junguiano

CRP 08/32882

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Você se sente preso? Constante decepção com as pessoas e consigo mesmo por não conseguir mudar? Sente um cansaço constante diante da vida e das relações que só repetem os mesmos problemas? Uma insatisfação e vazio que não passam com nada? Medo de dizer não, de não agradar? Ansiedade porque deveria fazer mais e melhor pelos outros? Se sente envergonhado, esquisito ou inadequado?

 

Essas são algumas das consequências de viver a rejeição, a vergonha seja dentro da família ou fora dela.


O armário e a homofobia causam essas dores, bem como ambientes familiares e sociais difíceis.
Isso cria um padrão de vida, de se relacionar que é sufocante porque você vive sem saber dos seus sonhos, desejos e sem saber do seu potencial. Você está desconectado de si mesmo porque aprendeu que o que e quem você é não tem valor. É viver em estado de alerta para que ninguém descubra suas características ruins, como em um filme de terror e o monstro é o olhar dos outros.


Assim você vive aceitando qualquer coisa porque aprendeu que você não tem valor, então não pode fazer exigências, faz tudo pelos outros, se molda pela felicidade e bem-estar dos outros. Mas os outros felizes e satisfeitos com os seus sacrifícios não traz significado a sua vida, pelo contrário: rouba o sentido de viver.


Recuperar quem você é, ouvir suas emoções, desejos, e descobrir o que faz sentido para você na vida, desenvolver coragem para construir e conquistar o modo de vida que faz sentido apesar do olhar dos outros, das reprovações, a firmeza necessária para manter essa mudança. Essas coisas são a chave para a jornada de quebrar esse ciclo. Isso é mergulhar nas suas cores.


Isso é parar de tentar se encaixar. Imagina, como seria? Sair desse sufoco, se sentir mais leve, fazer o que faz sentido, viver, se relacionar e amar conforme quem você é e o que te realiza. Imagina como seria resgatar suas cores que foram perdidas, esquecidas e roubadas?


Esse é o meu trabalho: ouvir com você o que foi calado, silenciado e esquecido. Mergulhar com você para explorar e resgatar o que foi perdido, não em direção a perfeição, mas em direção a quem você é. Esse trabalho se chama análise.
 

Na análise você vai ser ouvido de modo livre, sem imposições, é um espaço construído para mergulhar nas suas cores, para isso o método dialético coloca eu e você como iguais, se trata de uma descoberta, vamos explorar juntos, no seu tempo, do seu jeito os padrões e ciclos que te prendem, podemos também analisar seus sonhos porque eles nos mostram o que eu e você não vemos, os detalhes das correntes, os mecanismos, o jeito que você cai sempre no mesmo ciclo. Não há preconceitos sobre como você tem que viver, o que é saudável ou normal, o que decide isso é a experiência, é você, se você fica saudável e confortável no estilo de vida que você escolhe viver, então não há imposições.


Eu não determino o que você tem que fazer, porque isso o mundo já fez para você sua vida inteira e o resultado foi péssimo, a análise é um lugar novo para vivenciar o novo, você não precisa de mais correntes, precisa de liberdade para explorar os diversos sentidos que suas emoções, desejos, sonhos e projetos te mostram, você precisa ouvir quem você é. Esse espaço é a análise.


A análise é prática, o que é resgatado se torna ação, experiências que te transformam, mas a direção quem escolhe é você, o caminho é seu e o volante está na sua mão, meu papel é abrir o mapa e mostrar as possibilidades que estavam invisíveis para você até agora.


A análise é o mapa que tem o potencial de abrir novas áreas que você jamais viu antes, novos caminhos, ferramentas capazes de aos poucos quebrar ciclos.


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