A arte e o processo

Hoje venho falar com você não de um lugar de alguém que entende profundamente de arte, apesar de a arte fazer parte da minha vida, nem de arteterapia.
Hoje eu falo de um lugar para partilhar experiências e não trago uma grande preocupação em embasar minha fala de modo teórico, pelo menos vou me dar essa licença hoje de me cobrar menos do que de costume, porque hoje quero dar destaque ao processo.
O processo de elaboração.
Diversas vezes digo aos pacientes: faça algo com seu sonho (sonho noturno), desenhe, cante, dance, expresse ele, dê forma, até mesmo escreva sobre ele, anote ele, suas interpretações sobre ele.
Por que digo isso? Porque aprendi o valor disso ao fazer isso.
O intelecto, a razão e uma boa interpretação de sonhos por mais coerente, técnica, correta é apenas uma parte do processo, quando você expressa o sonho e seus processos interiores no papel, na voz ou na escrita você está criando, dando forma, você se aproxima de coisas sobre você que usualmente não tem contato.
Você elabora suas questões. Você elabora sua raiva, sua revolta, o amor perdido, a dor, o sofrimento, a tristeza, o medo, a coragem.
Você elabora isso com as mãos na argila, com as mãos no pincel e para isso o intelecto e o pensar são apenas uma ferramenta que você vai deixar de lado por alguns breves momentos para mergulhar em algo que você não está acostumado.
Você vai olhar sua questão por outro ângulo, você cria ABERTURA para observar de outros ângulos.
Eros participa do processo.
Precisamos cada vez mais desse diálogo prático entre todas as elaborações intelectuais e teóricas com esse fazer concretizar, especialmente se você valoriza bastante suas elaborações intelectuais.
Esse é o caminho que tem feito sentido para mim, e sempre que os pacientes se aproximam um pouco mais dos seus sonhos utilizando alguma via, e também multiplicando essas vias de contato com sua voz interior, com seus sentimentos mais profundos, vejo que se tornam um pouco mais inteiros, conseguem suportar mais as caminhadas difíceis da vida e conseguem apreciar mais os momentos bons.
Há coisas que eu jamais teria compreendido sobre mim mesmo caso ficasse apenas elaborando intelectualmente, do mesmo jeito que quem sabe alguém que faça tudo menos elaborar intelectualmente precise do intelecto em alguma medida.
Você não é o seu jeito de ver o mundo, você é muito mais.
Ontem mesmo pensei: pintar é como sonhar, você pinta, deixa tudo sair e depois tenta entender o que saiu. A última preocupação é que seja esteticamente bonito, às vezes vai parecer um desenho de criança, genuíno e revelador dos segredos que você tão engenhosamente esconde de si próprio.
Pintar é como sonhar, assim como o sonho não precisa fazer sentido, você se permite estar naquele processo, no trabalho mais importante, o trabalho com a tua alma, com o teu sentimento, com o teu pensar, com o teu corpo, e os frutos que você colher disso não estarão em nenhum livro porque são absurdamente pessoais, por mais que possam eventualmente partilhar algo em comum com o resto do mundo.
Falo mais do pintar, mas qualquer outra forma de concretizar, que demande um trabalho seu de sentar e fazer pode se tornar algo muito frutífero, especialmente se faz com que você pare de funcionar do jeito que sempre funcione.
A preocupação não é estética, não é para ficar bonito ou apreciável, é para expressar a alma, é também a capacidade de acolher sua própria expressão, seja ela como for. É intensificar e aproximar o diálogo do eu com os próprios processos interiores e inconscientes, é transformar, é quebrar padrões.
As coisas que se aprendem desse modo nenhum livro pode ensinar, são completamente pessoais, é autoconhecimento, e às vezes torna-se algo tão íntimo que nem sabemos por em palavras porque apenas a imagem, som, movimento é capaz de transmitir tais coisas.
Pensamos que as vezes que profundidade equivale a compreender, decorar, entender as mais profundas e complexas teorias sobre as coisas, mas com isso podemos esquecer a profundidade individual que só ganha voz nesse tipo de trabalho que para o mundo talvez tenha pouco ou nenhum valor, mas para o sujeito seja algo quase que sagrado, pois os seus sentimentos mais íntimos estão ali ganhando vida.
Valorize seu processo individual, ninguém fará isso por você. Ninguém vai pintar, cantar, dançar (ou qualquer que seja a forma de concretizar) por você.
Para conectar e elaborar certas coisas é preciso abrir mão do saber, principalmente quando este ao invés de libertar prende o indivíduo nos mais complexos meandros que um pincel e um desenho simples poderia expressar. E abrir mão do saber é algo momentâneo, do mesmo jeito que trocamos de usar o martelo pela serra, são ferramentas, todas essenciais, e todas tem um contexto onde brilham, onde acrescentam e um contexto onde são inadequadas.
Você é muito mais ao se permitir ouvir.
Ricardo Sergio Backes Bertuol
Analista Junguiano & Psicólogo CRP 08/32882








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