Crueldade: "Procrastinação é causada por medo do sucesso"
- há 21 horas
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Acabei de ouvir essa frase em um reels pop bombando por aí sobre como você procrastinaria por medo de uma suposta grandeza adormecida. Isso é cruel com você que se esforça para alcançar seus sonhos, cruel com você que quer mudar algo, é cruel porque consome quem você é, porque faz você achar que não ser tão grande é um problema.
Procrastinação é uma voz, um sinal, uma expressão. É mais complexa do que parece porque a realidade é complexa. Se não for isso o que pode ser? Separei 6 hipóteses que podemos pensar sobre:
Seu objetivo ou meta não faz sentido: falta autoconhecimento e reflexão sobre o que te realiza porque só assim pode ser possível exercer grande esforço em direção a algum objetivo, por que você quer isso? Isso agradaria a quem? A procrastinação é uma amiga que abre portas ao pensar e considerar as coisas em um sentido mais amplo. O ponto é, não precisa ser grande e melhor, precisa fazer sentido.
O caminho ou modo de alcançar seu objetivo não condiz com quem você é: surge a ansiedade, o medo de falhar e a impulsividade que se infiltram no que você faz e distorcem o que faz sentido para você, então o jeito que você está tentando é um método que não condiz você e te afasta de quem você é ou o que faz sentido, assim você acaba procrastinando. Novamente, a procrastinação é uma aliada para repensar as coisas.
Expectativa alta demais: é como ter que fazer um salto arriscado, a falha levará a dor e até mesmo a morte ou ossos quebrados, por isso você hesita com razão. O desejo de fazer demais leva ao medo do fracasso que te segura, porque o fracasso te machucaria muito e assim você o evita. Novamente a procrastinação é uma amiga: suas metas e objetivos são realistas com sua capacidade? Seja ela hoje muito baixa para o tanto que você gostaria ou não. É um convite para a justa medida das coisas. Um convite para ser justo com você mesmo.
Você está sobrecarregado: você tem levado tudo no limite e feito demais, quando as forças começam a falhar você acha que está procrastinando, mas na verdade só precisa descansar e pegar mais leve. Aqui temos um convite para ouvir os seus ritmos e limites, bem como a variação natural que eles tem.
A vida é mais ampla que a sua meta: isso se relaciona muito com a sobrecarga, talvez não tem nada de incongruente com seu objetivo, expectativa ou meta, mas você tem sido negligente, tem deixado de lado outras áreas importantes da vida, como seus momentos de lazer, descanso, seus relacionamentos, família e amigos podem estar ficando de lado. O desejo pela grandeza está te engolindo, dentro do estômago da grandeza falta ar para respirar. É um convite para sair disso e rever as coisas de modo mais amplo.
Você idealiza um “eu” antes e outro depois do sucesso: estamos condenados por esse mundo a ter sucesso, a sermos grandes e eficientes, todo o resto, mesmo que seja humano é visto como lixo ou estorvo. E se o estorvo for parte essencial de quem você é? É um convite para olhar com compaixão e aceitação para quem se é, mesmo as partes pequenas, frágeis e improdutivas, o que elas querem te contar?
Vendem-se por aí transformações maravilhosas e mágicas de personalidade, caráter e mindset, mas são transformações onde todos viram a mesma coisa: consumidores produtivos. Os sonhos se aplainaram e perderam seus aspectos individuais? Não sei, talvez.
Só sei que essas transformações são máscaras que não correspondem ao verdadeiro rosto que é colado na carne, o rosto com o qual nascemos aquele que está, que é natural, que não queremos reconhecer e nem lidar, porque não é estético, não é tão simétrico e você acaba cometendo sempre e de novo a violência do "deveria ser assim", deveria ser: grande, bonito, desejável, simétrico e apreciável.
Por que essa explicação de que a procrastinação é medo do sucesso é tão digerível?
Porque vira uma história reconfortante e boazinha que justifica que dentro de você há uma grandeza gigante e que ela é tão grande que te assusta. Grandeza do que? De desejar o que todos desejam? O desejo de ser tudo, menos quem você é?
É uma explicação que massageia o ressentimento de ser real e não uma imagem perfeita e grandiosa. Sim, estamos ressentidos por sermos reais, falhos e imperfeitos. Então essa história vem e nos agrada dizendo que essa palhaçada tem que continuar porque assim como a borboleta sai do casulo, seu eu grandioso vai sair e devorar o mundo, mas o que ele vai realmente devorar é quem você é.
Então talvez você tenha razão em temer a grandeza, pois ela será o aniquilamento do que te torna único.
Se todo mundo for tão grande assim? Onde estarão as pessoas comuns? Onde estarão os seres humanos que trabalham, cansam, dormem e descansam?
Deveria estar tudo bem em ser pequeno, em ter todo e qualquer tamanho, por isso que essa lógica é tão cruel, porque ela rouba o direito a humanidade.
Abraços e até a próxima ❤️
Ricardo Sergio Backes Bertuol
Psicólogo & Analista Junguiano CRP 08/32882







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