Como definir seus valores?
- há 2 dias
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Valores não podem ser criados escritos em uma agenda das suas metas de ano novo, não dá só para copiar o que seus pais achavam certo de ser feito, ou aquilo que o mundo diz que deve ser uma vida ideal.
Valores são experienciados, são ouvidos, são descobertos.
É uma prática comum de “autoconhecimento” ficar lá escrevendo e relembrando por horas suas experiências de vida, das piores até as melhores, pode ser interessante, pode te dar novas perspectivas, mas diante de tudo isso você realmente ouve o que sente, ou você só escreve como acha que deveria se sentir?
É feio sentir raiva da mãe, então por que sentir raiva de algo que ela te fez, te prejudicou? E aí quando você vê, acaba relevando muitas coisas que te machucam porque é feio sentir raiva.
Tem que obedecer o pai, mesmo que viver de acordo com as ideias do pai te machuquem, certo? Quando você vê se casou ou namora alguém que impõe normas como seu pai fazia, você só obedece, porque afinal, é feio brigar, questionar, ou pensar por si mesmo?
Aí você senta para escrever seus valores pessoais e chega a conclusão de que você é uma pessoa gentil, compreensiva, amorosa quando na verdade apenas reprimiu a própria raiva e esqueceu o que realmente quer para evitar conflitos. Então seus valores de faz de conta são escritos como compaixão, gentileza, compreensão quando na verdade são submissão, falta de ouvir as próprias emoções e uma grande repulsa em saber o que você realmente sente.
Esse tipo de prática não toca nem na superfície das feridas que te afligem, porque nem o papel, nem o chat GPT, nem você mesmo são capazes de perceber o quanto você se engana para enfeitar o passado e a si mesmo, fazer de tudo isso um grande chocolate feliz de infância para ser vendido e consumido como o algodão doce mais desejado da praça. E se alguém apontar esse engano? Aí é ofensa pessoal, aí é uma pessoa tóxica e destrutiva porque apontou uma grande ferida, que está infeccionada e latejando, esperando para que a noção de realidade volte e o espinho seja tirado, a ferida lavada, e a coisa toda tratada.
Mas não, te ensinam a ver o espinho e a infecção como beleza, como resiliência, como gentileza.
Então tudo se repete, você repete as ações que te machucaram nos outros e enquanto faz o mesmo a si próprio, tudo debaixo do seu nariz enquanto você pensa que é um ser de luz, as trevas agem livremente porque não tiveram atenção, não tiveram misericórdia, todo vilão em história de quadrinhos sempre teve um forte sofrimento que “justificam” seus atos terríveis, não somos tão diferentes dos quadrinhos em certo sentido.
Sofremos uma ferida, e sangramos sobre os outros nossas dores, e queremos tanto ser bons que no fim vivemos e agimos bem distantes de quem realmente somos. Veja, não somos perfeitos, não é que a gentileza, a compaixão e todas essas coisas sejam só ilusão, é que elas só se tornam reais se você viver consciente de que o egoísmo e as coisas ruins também fazem parte de quem você é.
Antes de se deixar enganar por exercícios bobinhos de autoconhecimento, repense, porque você é muito mais complexo do que parece ser, há muitas camadas, muitas direções e muitas ilusões que gostamos de comprar sobre nós mesmos, sobre como somos melhores do que realmente somos.
O desejo de ser melhor quase sempre é o desejo de negar a si mesmo, quem quer ser melhor quer se recortar dos próprios defeitos, e isso, causa cisão, a personalidade se divide em bem e mal, a vida empaca, por que como que você vive sem poder se relacionar com a sua raiva?
A raiva diz do que te irrita, do que incomoda, do que você não acha certo, e se você ouvir ela te permite muito mais: descobrir de qual ferida vem essa raiva, ou se não há ferida e essa raiva é a resposta correta para a situação em mãos, enfim, abre-se um mundo de possibilidades, mas possibilidades são a escuridão que você chama de terror porque elas se opõe ao seu projeto de ser uma pessoa boa e melhor.
Não sejamos melhores, sejamos inteiros, aí que o real diálogo entre suas qualidades e defeitos podem ser vividos e a vida consegue fluir através do peso da consciência de quem você realmente é, ao invés de travar pelo amor a ilusão de quem você deveria ser.
Um abraço do seu psi
Ricardo Sergio Backes Bertuol
Analista Junguiano & Psicólogo CRP 08/32882








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