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Você saiu do armário, mas o armário não saiu de você

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura
Armário velho com corrente trancando-o

Ufa! Você finalmente se assumiu, tudo se resolveu. Será? Depois de todas as dificuldades que você passou, sair do armário parece o "felizes para sempre", a conclusão, o fim. Mas e se for só o começo? Um grande e poderoso marco de largada para algo muito maior.


A vida sofre uma guinada depois que saímos do armário, mas aquele fantasma ainda está lá, aquela dúvida: será que me amam o suficiente? Será que eu não tenho que fazer mais para o meu namorado? Será que eu sou uma pessoa ruim se eu não fizer isso? E se acharem que eu não sirvo? E se ficar mal feito? As perguntas e dúvidas intermináveis, assim como os julgamentos que você faz com você mesmo "eu não sirvo para me relacionar", "eu sou uma fraude"... Tudo isso, será que só sair do armário resolveu tudo?


A pressão e a vergonha diminuíram, mas continuam atuando, você está no mesmo ciclo, mas a partir de um lugar diferente, um lugar um pouco mais leve. Você saiu do armário, mas ele continua preso nas suas costas. Você quer andar por aí com o armário pendurado nas suas costas te assombrando? Eu com certeza não quero.


Acho que você não quer viver por aí implorando por afeto e aceitação nas suas relações, nem ficar controlando os outros para "medir" se te amam o suficiente. Imagino que também não quer ficar preso a um lugar seguro mas que é sufocante, que é um armário um pouco maior que não deixa você experienciar o que quer.


Acredito que você não quer viver fissurado por ser respeitado, disposto a se destruir para ter um lugar no mundo, implorando que o reconhecimento chegue de fora e você se liberte de vez da vergonha que o preceito te causou durante anos desde o bullying na escola.

Suponho que tu não deseja viver constantemente triste e irritado por dar tudo de si e não receber esse resultado.


Então labubu, pensa: o que realmente mudou depois que você saiu do armário? E o que ficou para trás? O que ainda precisa de atenção?


Se você acha que os problemas foram resolvidos, tudo isso que eu falei não é percebido e você não consegue mudar o que não percebe.


A questão é tu ser maior que a porra do armário, a questão é tu ser como queres, a questão é se tornar quem você é.


Se você não investe nisso provavelmente vai enfrentar grandes dificuldades nesse ciclo repetitivo dos fantasmas do armário, dessas vozes, dessas cobranças, desses medos e inseguranças. E que vida sobra no meio disso? Tem como descobrir o que te realiza? É um ambiente bom para viver?


Isso afeta tudo! É uma droga! Afeta teus relacionamentos pessoais e profissionais, afeta tua autoestima, sair do armário não significa que tu aprendeu a se valorizar, é um passo enorme, é grande mas não é dois.


Se tu não sabe como se valorizar, vai buscar lá fora e dificilmente vai receber isso de modo digno, quase sempre vai ter que se doar até a exaustão para os outros, se reprimir, se silenciar o tempo todo.


Seu lema de vida será: "é melhor dar tudo para os outros para que eu receba quase nada". Isso precisa mudar para ontem. O crescimento te chama, o garotinho assustado saiu do armário, agora é corajoso e mais forte, mas e aí, quando ele vai crescer? Ele tem uma vida pela frente!


Imagina como seria a tua vida se essas questões não te afetassem tanto? Sem ficar ansioso tão intensamente o tempo todo? Com raiva? Buscando controlar as coisas e as pessoas? Continuar se doando até a exaustão? Ser um escravo da própria produtividade? Como seria?


Os problemas não somem, a ansiedade não some, a necessidade por afeto não some, mas elas podem se transformar! Na verdade, elas vão transformar você. E isso vai acontecer se você parar para ouvir: o que você tanto busca? O que isso quer dizer? O que esses sentimentos querem dizer?


Vou ser sincero com você: não dá para saber o que você busca, a gente precisa descobrir.


Os sonhos podem dar pistas, a ansiedade, os medos, como começaram, como acontecem, onde, quando. Juntamos tudo isso, vamos pensar juntos e entender esses padrões de modo personalizado, não tem outro jeito, caso contrário eu estaria te empurrando uma solução que nem sei se vai funcionar para você, caso contrário vou dizer o que eu acho e o que eu acho não te serve.


Jung nos diz:


"A grande infelicidade de nossa cultura é o fato de sermos estranhamente incapazes de perceber os nossos próprios sentimentos, quer dizer, sentir as coisas que nos dizem respeito"(2015, p. 11)

As pessoas só percebem o sentimento quando ele vem acompanhado de uma reação fisiológica, como os batimentos cardíacos acelerarem.


Já parou para pensar quantos sentimentos passam despercebidos? Sentimentos que tem forte influência sobre como você vê o mundo? Sobre como você age?


A baixa autoestima, a ansiedade, os fantasmas do armário, tudo isso são os sapos que você engole e nem percebe, mas essas coisas guiam sua vida para um lugar difícil.


"Enquanto estamos sozinhos conosco mesmos, podemos sabe Deus que camelos engolir, e isso não nos afeta de modo significativo. Enquanto supomos que ninguém sabe a respeito de algo, somos pouco capazes de avaliar o que o assunto realmente representa para nós. Por isso sempre aconselho as pessoas a falarem sobre as suas questões. Pois assim percebem que valor de fato as coisas têm para eles" (Jung 2015, p.12)

É na partilha que você se conscientiza dos seus padrões, do que sente, isso te atinge, te desequilibra, e é isso que tem força de enfraquecer o padrão rígido. É preciso alguém de confiança, pois caso contrário o efeito pode ser terrível e você jamais voltar a tocar no assunto com ninguém, assunto que precisa ser tratado, precisa de atenção, por isso a análise se torna o lugar seguro para isso. É na partilha que podemos ter consciência do estado que estamos.


É um lugar para voltar-se para dentro, para perceber!


Você vive reclamando que ninguém reconhece o que você faz? Por que você se queixa? Por que precisa que o outro reconheça? Por que você não quer reconhecer valor no que você faz?


Você vive reclamando que não recebe atenção suficiente? Por que precisa receber isso? De quem? O que será que você não quer cuidar em você que faz você querer que o outro cuide?


Você vive sentindo vergonha e medo de ser reprovado? Qual característica você não quer assumir para si mesmo? O que você não quer ver? E por que isso tem que ser terrível?

Você vive se sentindo pressionado a produzir? Por qual razão? Como você quer que o mundo te perceba para produzir tanto? O que você quer mostrar para o mundo que não consegue ver em si mesmo?


Se você quer um cara perfeito, onde estão suas imperfeições? Se você é capaz de pensar que o cara perfeito existe, provavelmente é incapaz de perceber a existência da imperfeição.


Isso é começar a tomar consciência dos padrões que te guiam, esse é o exercício de se perceber, de crescer cada dia um pouco mais, a cada sessão de análise damos um pequeno passo para construir um trabalho muito valioso juntos, um trabalho que pode ser capaz de transformar esses padrões.


Um abraço do seu psi,

Ricardo Sergio Backes Bertuol

Analista Junguiano & Psicólogo CRP 08/32882


Referência: Jung, C. G. Sobre sentimentos e a sombra. Vozes: 2015 (livro).

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