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Magi: O que precisa ser sacrificado para seguir em frente?

  • 13 de dez. de 2025
  • 11 min de leitura

Neste texto vamos descobrir juntos o movimento natural da vida entre seguir em frente e a vontade de desistir. Como esse movimento é essencial para a vida?


(Esse conteúdo está disponível em áudio no meu podcast, se prefere ouvir ao invés de ler, clique aqui).


Com a ajuda do anime Magi, vamos descobrir como repensar tudo isso.


No anime, o Rukh é a fonte da vida, é para onde todas as almas vão quando morrem, é o fluxo do destino. Mas o que isso tem a ver com seguir em frente?


Bom, tudo a ver!


O destino não é aqui algo mágico, simplesmente é a direção da vida. A direção do bebê é crescer, do adulto é envelhecer, e a do final da vida é a morte. A vida caminha nessa direção, não há exceção.


Quando vamos contra a direção da vida surge o sentimento de nostalgia, queremos voltar a um mundo sem problemas, um mundo que acolha o nosso cansaço, queremos o colo da mãe, seja essa concreta ou uma expectativa.


Essas duas coisas são necessárias, a volta ao passado nos leva a recuperar algo essencial para seguir em frente, mas se só ficamos no passado é a mesma coisa que ficar preso na mesma fase da vida para sempre, no mesmo problema, é a vida não vivida, é a morte.

A vida fica estagnada entre querer ir para trás e ser empurrado para frente.


Imagine que você está terminando de se formar, o futuro te assusta, você não sabe como vai ser, há um medo que o faz regredir, muitas vezes as pessoas sentem uma forte angústia para conseguir terminar o TCC, isso pode ser causado por esse medo.


Ao mesmo tempo você quer avançar e realizar seu sonho de se tornar um profissional, então você sofre com desânimo constante ou crises de ansiedade ou bloqueios criativos.

A vida não avança, você travou.


No anime Magi, isso fica claro quando observamos a dinâmica entre o Rukh preto e o Rukh branco.


Quando alguém amaldiçoa seu destino, o Rukh torna-se preto e acontece o fenômeno que é chamado no anime de "cair", na junção de grande quantidade de Rukh negro pode-se evocar o médium que chamará a entidade desconhecida de outro mundo que fará o mundo murchar, secar e acabar.


Toda vida será drenada, o que é equivalente à morte de todas as coisas.


Essa é a consequência final da nostalgia, porque viver significa enfrentar dificuldades, e o desejo de que as dificuldades sumam para que se possa continuar do mesmo jeito, é em seu íntimo o anseio pela morte.


Não entenda mal, é diferente de parar um pouco, descansar, querer algum conforto, é natural do mesmo jeito que temos de dormir e acordar: esse é o ciclo da vida.


Ao final da primeira temporada, Alibaba é mordido por uma serpente. Usualmente, a serpente é símbolo do inconsciente, da mãe, da nostalgia, mas principalmente do medo, além de diversos outros significados.


A cobra que engole o elefante no Pequeno Príncipe pode ser interpretado como uma imagem do aspecto heróico sendo devorado e condenado a escuridão. Aquela força para seguir em frente e conseguir superar os desafios é tomada de nós, estamos envenenados. Do mesmo modo, Ísis formou uma cobra e colocou no caminho de Rê, seu filho, então o deus solar fica ferido, envenenado com a picada da cobra.


A mãe, a fonte da vida, nos envenenou com a morte, com o desejo de voltar de onde viemos. Mais adiante ficará mais claro esse movimento.


Qual a relação de tudo isso?


Bom, para vivermos a vida precisamos nos desprender do colo da mãe onde todos os problemas estão resolvidos, colo cujo o qual sempre sentiremos saudades.


Você quer seguir em frente, mas também quer ficar para trás. Aqui temos o medo da vida, quanto mais você fugir do problema, mais medo terá dele e mais a nostalgia te tomará para ficar para trás e assim você culpará o mundo pela própria incapacidade de sacrificar o passado e a nostalgia para seguir em frente.


Observamos isso no anime:


Na primeira temporada, temos o confronto de Alibaba com Cassim, são amigos de infância.


Cassim sempre acreditou que Alibaba era melhor. Então Cassim joga sua própria capacidade sob as costas de Alibaba, o príncipe; e volta ao passado constantemente relembrando que seu pai dizia que Cassim tinha o sangue ruim dele nas veias, e por isso jamais seria capaz de boas realizações.


Cassim amaldiçoa seu destino e escolhe ficar preso ao passado, sempre nessa ideia de que é o incompreendido e o mundo é culpado de tudo. Alibaba teve a atitude oposta, esteve sempre pensando em como criar as mudanças, como sair do passado e criar um presente diferente.


Mas por que o movimento psicológico de Cassim era voltar ao passado?


Porque ele precisava rever a ideia compulsiva que o pai dele lhe dizia, ou seja, o pai dizia que Cassim era um lixo como ele. Lá ficou perdida a potencialidade, e por isso Cassim era arrastado sempre e de novo para esse momento, o momento em que o pai lhe diz que ele é um lixo, para que lá ele possa quebrar esse ciclo e recuperar algo precioso.


Mas como um peixe se liberta do aquário do qual chama oceano?


Por essa razão, isso é extremamente complicado de se fazer sem ajuda, apesar de não ser impossível.


Vamos para mais exemplos.


Vamos à história de Dunya, a ex-princesa de Musta'sim. Ela sofreu coisas horríveis e teve sua pátria destruída. Ela usa as armas da organização feita de Rukh negro, amaldiçoa o próprio destino e quer destruir o mundo.


Veja que o mundo não se refere ao exterior, mas sim ao contexto atual da consciência. Parte do mundo será inevitavelmente inflexível e imutável, sofrimento este que somos postos à prova para sustentar. O desejo de destruir o mundo é se voltar para si próprio, para a própria destruição, pois sem consciência, sem a própria vida, não haverá mundo.


Destruir o mundo nos levará para aquela vida no colo da mãe, o sono tranquilo da morte, onde não haveria mais consciência. É aqui que os fatores de risco do adoecimento mental se estabelecem, não só por condições do sujeito, mas pelas dificuldades muitas vezes intransponíveis de nossa cultura, economia, dentre tantas outras variáveis que são materiais e objetivas, variáveis estas que não estou abordando aqui.


Dunya quer destruir o mundo, na escuridão não haverá mais sofrimento, para isso ela usa essa arma proibida. Aqui a história de Alibaba e Dunya se entrelaçam, pois Alibaba amaldiçoa o próprio destino quando revive todo seu sofrimento misturado com o de Dunya por conta do veneno da cobra, a cobra que o picou anteriormente na história.


Quando Aladin resgata Alibaba, ele o encontra envolvido por serpentes, preso em seu mundo interior com Dunya.


Estar envolvido é estar preso e estagnado. Esse simbolismo e o da serpente são muito ricos e exprimem estar preso a algo, alguma força o prende, algo precisa ser visto, resgatado e devemos emergir. Há várias histórias em que o herói é preso nas entranhas do monstro marinho para então sair, como Jonas e a baleia, por exemplo.


Alibaba amaldiçoa o próprio destino, para então superar isso e retornar ao mundo exterior.

Preciso trazer uma longa citação porque considero que ela é a coisa mais importante que você vai ler hoje. Realizei alguns cortes para deixá-la um pouco mais curta.


Vamos ao que Jung tem a nos dizer sobre esse movimento da vida, no volume 5 parágrafo 553:

"O Sol se liberta do abraço e do envolvimento, do seio abarcante do mar, subindo triunfante e, deixando atrás de si o apogeu do meio-dia e toda sua gloriosa obra, torna a mergulhar no mar materno, na noite que tudo cobre e tudo faz renascer. Esta imagem por certo foi a primeira a tornar-se, com toda razão, a expressão simbólica do destino humano: na manhã da vida o filho se afasta dolorosamente da mãe e do rincão natal para erguer-se até a altura que lhe está reservada, muitas vezes julgando ter seu inimigo à sua frente e no entanto trazendo-o dentro de si mesmo, esta perigosa nostalgia pelo próprio abismo, pelo afogamento na própria fonte, pelo ser atraído para o subterrâneo reino das mães. Sua vida é uma luta constante com a extinção, uma libertação violenta e passageira da noite eternamente à espreita. Esta morte não é um inimigo exterior, mas um anseio próprio e íntimo pelo silêncio e pela profunda paz de um sabido não ser, pelo sono clarividente no mar do vir a ser e do desaparecer. Mesmo em seus maiores esforços por harmonia e equilíbrio, por absorção filosófica e emoção artística, ele procura a morte, a imobilidade, a plenitude e a paz. [...] nesta sede de silêncio e paz, ele entorpecerá e o veneno da serpente talvez o paralise para sempre."

O veneno o entorpecerá e talvez ele paralise para sempre. Alibaba fica preso no passado onde falhou, envenenado, onde suas expectativas morreram, seus ideais e ingenuidade foram destruídos, lá ele caiu e não quer mais progredir para enfrentar mais dor. O escuro e o silêncio seduzem-no a não mais lutar, é preciso recuperar algo importante.


Vamos retomar:

"Se quiser viver, precisará lutar e sacrificar sua nostalgia do passado, para assim atingir a altura que lhe é própria."

É preciso que Alibaba sacrifique de vez seus ideais e suas expectativas de conseguir fazer o impossível para que então possa realizar o que é possível. Diante desse sacrifício ele poderá deixar de ser paralisado fazer o possível que só ele pode fazer. É passar da incapacidade para a capacidade, da impotência para a potência e encontrar a altura que é própria, ou seja, a altura dos seus feitos.


Vamos retomar:

"E quando atingir a altura do meio-dia terá de sacrificar também o amor por sua própria altura, pois não lhe é dado parar. Também o Sol sacrifica sua maior força para prosseguir em frente, rumo aos frutos do outono, que são sementes de renascimento. O curso natural da vida exige inicialmente do jovem o sacrifício de sua infância e de sua dependência infantil dos pais físicos, para que não permaneça fixado a eles pelo laço do incesto inconsciente, prejudicial para corpo e alma."

Nenhuma conquista ou adaptação é permanente. Como você pode ver, no anime Alibaba e Aladin, como muitos outros personagens se questionam várias vezes sobre as próprias capacidades e tem de realizar diversas mudanças de curso. Não é porque um jeito de viver dá certo que ele dará certo para sempre.


O sol caminha para a noite, é o progresso natural da vida.


Retomando a leitura:

"[...] Com a separação do torpor da infância se almeja uma consciência autônoma. O Sol se afasta das névoas do horizonte e atinge a claridade imaculada da posição meridiana. Atingido este alvo, o Sol torna a declinar para aproximar-se da noite. Isto se manifesta em alguma coisa que poderia ser alegorizada por uma gradual infiltração e desaparecimento da água da vida. Teríamos que abaixar-nos cada vez mais para tornar a alcançar a fonte. Quando nos sentimos nas alturas, não gostamos de fazer isto. Desenvolvemos uma resistência contra a tendência de descer, principalmente quando sentimos que alguma coisa dentro de nós quer acompanhar este movimento; com razão nada de bom pressentimos por detrás dele, e sim algo obscuro, rejeitável e ameaçador."

Quase sempre na vida chegamos a momentos de apogeu, de realização, de adaptação, tudo se encaixa e flui, mas eventualmente algo dentro de nós nos puxa para baixo. Queremos que o sol pare ao meio-dia e nossas conquistas sejam preservadas, queremos manter o nosso melhor momento.


Retomando:

"Sentimos um deslizar, e começamos a lutar contra esta tendência e a defender-nos contra a obscura maré do inconsciente e sua sedução para o retrocesso, que se esconde sob o manto de princípios, convicções e ideais consagrados. Se quisermos firmar-nos na altura alcançada, precisamos esforçar-nos continuamente pela conservação de nosso consciente e da posição por ele assumida. Mas perceberemos que esta luta louvável e aparentemente inevitável, com o correr dos anos, leva ao ressecamento e enrijecimento interior. As convicções transformam-se em discos gastos, os ideais em hábitos rígidos e o entusiasmo em gesto automático. A fonte de água viva desapareceu infiltrando-se na terra. Se o próprio indivíduo não o percebe, percebem-no os outros, e isto é desagradável. Se ousarmos alguma vez olhar para dentro, talvez por um enérgico esforço de rara honestidade, ao menos para consigo mesmo, poderemos ter uma sensação de necessidades, nostalgias, temores, de contrariedades e coisas obscuras. A razão se afasta, mas a vida quer resvalar para lá. Nosso destino talvez nos resguarde disto porque estamos determinados a nos transformar na coluna imutável que sustenta um edifício. Mas o δαίμων nos faz cair e nos transforma em traidores de nossos ideais e de nossas melhores convicções, até de nós mesmos, tal como pensávamos conhecer-nos. Esta em última análise é a catástrofe, pois ela é um sacrifício não desejado. A situação é outra se o sacrifício é feito voluntariamente. Neste caso ele não significa queda, “inversão de todos os valores”, destruição de tudo que outrora era sagrado, mas transformação e preservação."

Observe que os personagens do anime caem, mas caem porque precisam de renovação, caem para recuperar algo no passado que lhes é importante, não para destruir seus sonhos, objetivos ou o que faz sentido, mas para renovar a si mesmo. A grosso modo, isso que chamamos de progressão e regressão da libido.


Observe também que ideias e posicionamentos muitas vezes precisam ser sacrificados, porque resvalamos ao mesmo tempo que queremos ser uma coluna imutável. Algo dentro de nós nos transforma em traidores de nossas melhores convicções, algo dentro de nós exige mudança, e se assim fazemos acontece renovação de quem somos.


Continuo ainda a citação:


"Tudo o que é jovem um dia envelhece, toda beleza fenece, todo calor esfria, todo brilho se extingue, e toda verdade se torna vazia [...]. Pois todas estas coisas um dia tomaram forma e todas as formas estão sujeitas à ação do tempo; elas envelhecem, adoecem, desintegram-se – caso não se transformem. Podem transformar-se, pois a centelha invisível que um dia as gerou é capaz de criação infinita por sua força eterna. Ninguém deve negar o perigo da descida, mas ela pode ser arriscada. Não se deve arriscá-la, mas é certo que alguém a tentará. Quem tiver de descer, que o faça com os olhos abertos. Pois é um sacrifício que dobra até a vontade dos deuses. A cada descida segue-se uma ascensão. As formas que desaparecem são reformadas, e uma verdade só é válida a longo prazo quando se transforma e torna a trazer seu testemunho através de novas imagens, em novas línguas, como um novo vinho que é acondicionado em odres novos."

Veja, cada personagem na obra que cai e amaldiçoa o destino, ou falha e morre perdendo-se eternamente do fluxo da vida, ou se renova e segue em frente. Em suma, para seguir em frente é necessário algum sacrifício daquilo que te impede, para que isso que te impede se transforme e possa te levar adiante.


Essas conclusões e constatações são apressadas e rasas, visto que se eu quisesse fazer um estudo mais aprofundado sobre o tema isso poderia se estender infinitamente. Deixei de fora o aprofundamento do tema de estar atravessado por lanças como acontece com Dunya, bem como o momento que o diretor Mogamett fica preso enjaulado dentro do médium, bem como os diversos ângulos que poderíamos interpretar essa história.


Infelizmente, também deixei de lado aspectos do mundo exterior e me foquei muito mais no mundo interior, nas percepções subjetivas e o que se pode trabalhar com elas, mas isso não anula o fato das duras desigualdades e injustiças que vemos no mundo aí fora.


Também deixei de lado minha curiosidade sobre o Rukh, aparentemente é uma ave especial da mitologia árabe, isso também teve de ceder à minha falta de tempo, bem como outros detalhes muito dignos de serem explorados.


Quando revi o anime me surgiu todo tipo de insights após ter lido o livro Símbolos da Transformação de Jung, então decidi compartilhar um pouco das minhas ideias para repensarmos juntos: o que significa seguir em frente? O que precisa ser sacrificado? E principalmente naturalizar o fato de que vamos eventualmente cair, ficar presos e sem saber o que fazer, mas já ajuda saber que isso faz parte do movimento da vida, o que é contado na história da humanidade em diversas mitologias sobre o renascimento.


Essas reflexões, inspiradas pelo simbolismo de Magi e pelos conceitos de Jung, nos mostram que o movimento de vida é um ciclo constante de progresso e regressão. Cair e se sentir paralisado faz parte, mas saber que isso é um convite à renovação é o primeiro passo para a transformação.


Se você se sente muito estagnado e o passado ainda te prende com muita força, a terapia pode te ajudar a identificar o que precisa ser sacrificado para que você possa, de fato, seguir em frente.


Envie esse texto para quem você acha que precisa repensar esses movimentos naturais da vida!


Ricardo Backes Analista Junguiano e Psicólogo CRP 08/32882

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